
Chegar a casa, ao final do dia e ler todas a vossas mensagens foi balsâmico, eu nem vos mereço.
São todos tão queridos e generosos...
O dia foi longo...
Fui à consulta de endrocrinologia com a minha mãe e pude contar com o apoio e ternura da Dra. Teresa Dias. É maravilhoso ver a transferência de humanidade e carinho que dá aos seus doentes. É como estar debaixo do manto de Maria. Bem haja por tudo o que tem feito por nós.
Fui ainda à consulta com o Dr. Rui Esteves ( Cirurgião) e a sua magnitude como ser humano e clínico de excelência deixa-me sempre tranquila e animada. A cicatriz está tão bonita, que nem parece ter só um mês, ou ser produto de uma cirurgia, foi uma grande obra, feita com mestria, assemelha-se a um arranhãozito na pele.
Confessei até que ultimamente tornei-me uma exibicionista, pois orgulhosamente a mostro a toda a gente. E é para mostrar, não acham?
Falámos sobre o resultado da análise patológica com assertividade e clareza. É muito bom quando o médico consegue "fazer a ponte" com o doente.
Quem dera que o mesmo acontecesse com os Oncologistas...
Sim, existe um sério problema de comunicação entre mim e eles. Tantas vezes tentei dizer-lhes que estou imensamente grata por terem aceite o meu caso, entre as centenas que diariamente têm, mas também sussurrar-lhes ao ouvido algumas palavras que tenho embargadas...ouçam só uma vez...por favor....
Eu sei que, como sou uma paciente que gosta de saber exactamente o que se passa, e qual o motivo desta ou daquela terapêutica, entre outras questões... e isto faz com que sinta que existe um enorme "choque" entre nós. Sinto que continuam a tratar-me com pressa e indiferença, sem paciência para as minha dúvidas, ou necessidades, sem tempo, incomodados em ter de explicar... e o que explicam, fazem-nos por meias palavras...não me olham nos olhos...
Para mim não chega saber que vou fazer quimo com um químico que faz cair o cabelo, eu preciso e quero saber qual o seu nome, que efeitos secundários faz, qual a sua percentagem de sucesso, porque incidiu a escolha sobre esse e não sobre outro... em que estadio estou, qual o grau, o que revelam os marcadores, o que significa 10 em 17 gânglios infectados exactamente...acreditem que não é masoquismo...é racionalidade.
Pensem comigo... se o nosso carro avaria, e acende uma luzinha no painel, convém ao condutor saber pelo menos o que ela significa, para ter uma noção do que vai acontecer ao nosso lindo carrinho, quanto isso nos vai custar e então depois deixar o mecânico fazer o seu trabalho. Pois todos nós quanto mais racionais formos, melhor gerimos as situações. E eu para conseguir gerir a minha, tenho de recorrer a isso, quanto mais eu souber acerca da minha condição, menos a parte emocional bloqueia, e com mais tranquilidade vos deixo fazer o vosso trabalho, lógico, não?
Será, a meu ver, no entanto, normal que quando me dizem as coisas pela primeira vez, ainda que por meias palavras, e eu as entendo, que tenha reacções emotivas. Mas isso Senhores Doutores, só faz de mim um SER HUMANO!!!!
Sou jovem, no auge da minha vida e com um futuro ... sem palavras para o descrever.
ACREDITO NO VOSSO SABER, SEI DA FALTA DE CONDIÇÕES DE TRABALHO E DO EXCESSO DE DOENTES, MAS NÃO SOU O NÚMERO, SOU A LILIANA, por favor, olhem para mim dessa maneira!!!!!
Entendam que tenho a prerrogativa de questionar, de aceitar ou não a circunstância. Afinal de contas tenho 35 anos, um cancro de mama bastante agressivo, deixei o meu curso por fazer, quase, quase no final, não sou mãe ( que sempre foi o meu maior sonho - agora roubado!), a suspensão do meu trabalho, que com tanto orgulho o exercia... tive de mudar TUDO na minha vida!!! Passei por quimioterapia, mastectomia, mais quimioterapia, a radioterapia que aí vem e a vossa ideia de CASTRAÇÃO QUÍMICA, e indução de menopausa. Teria sido bom ouvir-vos dizer tudo isto e sentir o vosso apoio, ainda que este só demorasse o tempo da consulta.
Se lerem, caros doutores não entendam como uma critica, mas como um pedido de entendimento...são palavras que têm ficado por dizer, que nos distancia cada vez mais, que me trazem tristeza, quando o que eu preciso é de alegria e esperança ... ESTOU AQUI !!!! - QUERO MUITO VIVER, mas todo o sofrimento tem um ponto de saturação ... por isso sentir que o médico que nos acompanha se preocupa pode fazer toda a diferença.
Beijos e orações a todos.
P.s. Daqui a pouco vou para "a sala de chuto", com borboletas no estômago, mas com muita fé. Acredito, acredito, acredito que este será o iniciar de uma nova era. A do sucesso!!!!!